quinta-feira, 22 de novembro de 2012

A POESIA NA MÚSICA



O Brasil é um celeiro de talentos musicais e poéticos, uma prova disso é que a música brasileira é cultuada em todo o mundo. Nossa música tem melodia, harmonia, ritmo e letra. Por óbvio, estou incluindo neste pacote apenas a boa safra da MPB, aquelas músicas “tipo exportação” que nem sempre estouram por aqui, infelizmente.
Que temos muitas letras de música que são poemas, isto é fato. Mas toda letra de música pode ser considerada poesia? O que diferencia a poesia da letra de música?
Entendo que a poesia está na intenção. Pode-se compor uma poesia para uma melodia já pronta, pode-se musicar um poema, daí nascem músicas com letras poéticas. Como se pode também tentar compor uma música, sem intenção poética e estética, visando apenas o lado comercial.

Não é preciso divagar muito sobre o tema, pois é facilmente perceptível que muitas das músicas atuais têm apenas cunho comercial, não passam de produtos de consumo rápido, ou “de moda”, as chamadas músicas fastfood. São músicas de sucesso meteórico, tocam por alguns meses e depois ninguém mais quer ouvir e muito menos regravar.
Por outro lado, existem os clássicos populares, músicas que por sua construção melódica e poética perduram no tempo e passam a fazer parte do cancioneiro musical de um país. Aqui no Brasil possuímos vários compositores que nos presentearam com suas canções imortais como: Noel Rosa, Vinícius de Moraes, Tom Jobim, Cartola, Milton Nascimento, Dolores Duran, Chico Buarque, dentre inúmeros outros.
Eis alguns clássicos da MPB quepossuem letras dotadas de indiscutível poesia:
“Olho a rosa na janela, / Sonho um sonho pequenino, / Se eu pudesse ser menino / Eu roubava esta rosa / eofertava, todo prosa, / à primeira namorada...” (“Modinha” - Sérgio Bittencourt)

Este clássico da MPB possui clara intenção poética e além dissoé dotado de outras características da poesia que são métrica e rima. A letra foi composta quase toda em redondilha maior, ou seja, cada verso possui sete sílabas métricas.

“ Quem nasce lá na vila / Nem sequer vacila / ao abraçar o samba / que faz dançar os galhos do arvoredo / e faz a lua nascer mais cedo.” (“Feitiço da Vila” – autores: Noel Rosa e Vadico)

“Feitiço da Vila” é outro exemplo de canção com intenção poética, neste caso, a intenção já inicia no título. Apesar de possuir versos assimétricos, a letra é constituída de belas metáforas. 

“Cheguei na beira do porto / Onde as ondas se “espaia” / As garça dá meia volta / E senta na beira da praia / E o cuitelinho não gosta / Que o botão de rosa caia...” (...) A tua saudade corta /como aço de “navaia” / O coração fica aflito / bate uma a outra “faia” / e os óio se enche d´água / que até a vista se “atrapaia...”  (“Cuitelinho” – música do folclore do estado do Mato Grosso adaptado por Paulo Vanzolini e Antônio Xandó).

Apesar de toda a simplicidade, a canção “Cuitelinho” possui uma poesia tocante com belíssimas metáforas e, além disso, foi quase toda composta em redondilha maior.

Poderia comentar inúmeras canções do repertório musical brasileiro com letras de inestimável valor poético e artístico. Entretanto, aproveito para ressaltar a importância de estarmos atentos ao que consumimos musicalmente.

Os ouvidos são uma porta sempre aberta para nosso inconsciente, nossa alma. Prova disso é que ouvimos tanto o que queremos quanto o que não queremos e os meios de comunicação se aproveitam deste fato para nos impor os produtos que desejam vender. Contudo, sempre que pudermos escolher o que ouvir, alimentemos nossa alma com música e poesia!

(Texto de Andra Valladares)





AndraValladares é cantora, compositora e poeta. Membro e atual Presidente da Academia de Letras Humberto de Campos (Vila Velha/ES), integrante do grupo lítero-musical Vozes da Vila.

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