sábado, 27 de julho de 2013

LICENÇA PARA CONTAR: SANDRO BAHIENSE


Sandro Bahiense é professor, bibliotecário e amante das coisas que envolvam escrita. Lançou em 2008, em parceria de Ricardo Salvalaio e de mais 7 colegas poetas, a coletânia de poesias "8 Vezes Poeta", trabalho em que pôde expor um pouco de seus sentimentos e arte. Ficou conhecido entre os colegas da UFES por fazer uma crônica para cada um deles. Além de crônica e poesia, Sandro também escreve artigos de opinião, contos e máximas. Tais trabalhos podem ser vistos em seu próprio blog cujo endereço é http://sandrobahiense.blogspot.com/. Sandro trabalha também, claro, neste blog como um dos colunistas. Confira, abaixo, o conto “Michael Douglas Day”:

MICHAEL DOUGLAS DAY

Michael Douglas ator norte americano recentemente diagnosticado (e dizem curado) de um câncer atuou em 1998 num filme chamado "Um dia de fúria". O enredo deste filme era de um homem que, saturado pelo massacrante dia a dia de nossa sociedade moderna, decide se rebelar contra o sistema provocando as mais loucas e inusitadas situações. Dez anos depois Charlie, aficionado fã do filme, decide criar um site intitulado "Michael Douglas ouve você" onde pessoas do mundo inteiro entram literalmente para desabafar os seus problemas ocorridos por causa do sistema. Não valiam desabafos de assuntos pessoais. Somente desabafos referentes a problemas por causa do sistema seriam aceitos e rígidos moderadores cuidavam para que tal regra fosse cumprida a risca.

Audrey uma jovem da Austrália teve uma idéia, a criação de um dia em que todos colocariam em prática o seu dia de fúria batizado de "Michael Douglas day". Claro que essa fúria seria bem mais branda para que ninguém terminasse como o personagem do filme (acabou assassinado). Charlie comprou a idéia e passou a divulgá-la no site. Logo decidiu que a data seria em 26 de novembro, data de aniversário de Audrey, numa espécie de homenagem a ela. O número de pessoas que afirmavam por em prática tais ações foi enorme e estimou-se que milhares de pessoas pelo mundo todo teriam seu dia de fúria no dia 26.

Quando o relógio deu zero hora do dia esperado Charlie mal se agüentava de curiosidade, afinal pelo fuso horário Audrey e outros cidadãos da Oceania e Ásia já deveriam ter começado seu dia de fúria. Como uma peça do destino quase que Charlie teve seu dia de fúria iniciado dentro de sua própria casa, pois tamanha foi a quantidade de acessos que seu site deu pane. Teve que se controlar, afinal ele deveria ser o organizador daquilo tudo e não poderia deixar seus seguidores na mão. Criou um site alternativo e contactou membros da rede mundial de computadores para resolver o problema. Recebeu a informação que o problema que acontecia em grande parte dos Estados Unidos fora provocado por um japonês que, irritado por ter perdido dinheiro em sites de bolsas de valores, decidiu tirá-los do ar sem perceber que tiraria a todos (inclusive o site de Charlie) por tabela. Quando soube da versão, Charlie se acalmou e tratou de dar a notícia a todos através de um site alternativo que logo teve um número de acesso recorde.

Porém o criador do site continuava curioso esperando por notícias de Audrey que não as mandava. Enquanto não recebia notícias da menina, Charlie se deleitava com as outras notícias. Chandok um rapaz da Índia, irritado com o grande número de ratos que povoavam sua vila, decidiu prende-los para soltá-los posteriormente em plena sede do governo local causando confusão e o fechamento da repartição. Outro indiano entrou depois no site para dizer que Chandok estava preso e que ele e outros membros do site estavam se mobilizando para ir protestar em frente à cadeia (cada uma com seu ratinho na mão para dar impacto, ele disse). Charlie sorriu largamente e podia imaginar a cena.

Daipú um rapaz tailandês que perdeu o emprego por causa de uma mulher que dormia com o chefe, tirou foto dos dois nús e colocou num out door para a cidade inteira ver (a mulher dele lhe deu dois tapas e o expulsou de casa, ele disse no post). Já Kalua de Samoa Ocidental disse que, com a ajuda de dois amigos, quebrou todas as lâmpadas dos postes de sua cidade, pois os morcegos estavam, por causa delas, perdendo a capacidade de viver e procriar, pois batiam nas coisas e acabavam se machucando ou morrendo (os humanos se preocupam tanto com eles próprios que se esquecem da natureza e isso me deixa furiosa) afirmava.

Outros depoimentos chocavam Charlie, como o de Stewart um Neozelandês que cortou o próprio pênis (num ato de fúria), pois não queria se casar com uma jovem (ele era gay, mas seus pais não aceitavam sua opção e queriam obrigá-lo a viver com a moça) ou de Branton um australiano que acabou morto pela polícia ao tentar furtar caça níqueis (que só o roubavam e que era hora dele recuperar o que era dele) palavras do rapaz antes de ser alvejado pela polícia. Posts pipocavam no site e Charlie temia perder o controle da situação.

Mas antes que a preocupação o consumisse por completo, eis que chega o post de Audrey. A jovem diz que seu dia de fúria iniciou quando ela começou a abrir os presentes (todos me indicavam caminhos a seguir, como o presente do meu pai, um ursinho vestido de médico, ele não poderia ser mais sutil?) ironizou (o estojo de maquiagem da mãe sempre induzindo que a aparência é tudo) e o cd de Lady Gaga dado pela irmã (pelo amor de Deus o que era aquilo?!? Quem disse que eu tenho que gostar desta desmiolada que se veste com roupa de carne viva?). Ela disse que abriu tudo e sorriu. Voltou para o quarto, arrumou suas coisas em uma pequena mochila, raspou o seu longo cabelo loiro, rasgou sua calça na altura dos joelhos e saiu. Contou aos pais, que estavam estutepáfitos com aquela sua imagem, sobre o dia de fúria e disse que, apesar de sua própria sugestão, faria diferente. Ela teria uma vida de fúria (e não só um dia), e saiu (eu só sabia o que eu não queria) disse. Levei o note book e o 3g só por sua causa, disse ela, meio que se defendendo por ter ficado com um aparelho que traduz futilidade e consumismo. Você saberá de mim, disse com ar misterioso (estou quebrando meu note book bem na frente da loja de eletrônicos mais populosa, não antes de fazer um discurso contra a modernidade) afirmou. No final apenas um "até breve".

Aquilo intrigou e preocupou Charlie. Seu sonho e de Audrey havia realmente saído de controle. Notícias de prostitutas agredidas, lojas de discos destruídas, bibliotecas queimadas, intoxicações, mortes, assassinatos, foram atribuídas ao Michael Douglas day. Charlie não conseguia ficar furioso - somente triste - e arrependido por tudo o que acontecia.


Eram cinco da tarde, note book aberto no site, quando a campainha daquela típica casa do Arizona tocou. Surpreendentemente era Audrey. Ela segurava uma arma calibre 22 em sua mão. Charlie não entendeu. Ela se apresentou, elogiou a agilidade das companhias aéreas, e entrou. Surpreso ele perguntou do porque daquilo. Viu como as coisas têm acontecido pelo mundo? Perguntou ela. Vi sim, respondeu Charlie tomado pelo medo. Aquele cara que colocou coco dentro dos hambúrgueres lá no Brasil foi demais, foi o que eu mais gostei, disse ela com semblante satisfeito. É, respondeu Charlie apreensivo. Porque essa arma? Novamente questionou ele. Me diga Charlie você está arrependido não está? Você vai cancelar o site não vai? Não sei, limitou-se a responder o rapaz. Não minta pra mim! Gritou ela nervosa. Charlie fechou os olhos até quase não vê-la. O suor na testa o denunciava, estava no limite do pânico. Trêmulo, decidiu tomar coragem e disse que sim, que iria acabar com o site e que estava arrependido. Não era o que eu queria, terminou ele. E você acha que se o personagem do Michael Douglas tivesse se arrependido nós veríamos aquele filme? Teríamos o site? O Michael Douglas day? Não meu caro, não teríamos. Sabe o que me deixa furiosa de verdade? Gente covarde. Acho que é hora de começar realmente o meu dia de fúria. Audrey deu cinco tiros em Charlie que morreu na hora. A jovem levou o corpo para a garagem. Sentada em frente ao computador ela só dizia: Isso não pode parar... Isso não vai parar...        

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